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Corajosas 2 - Mundo Cristão

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Características

Assobiando “Não sou tão forte”, coloquei o braço para fora da janela. Brinquei com o vento enquanto minha mãe dirigia pela BR-262.

— Aurora, dá pra guardar esse braço? Essa pista é perigosa, filha — mamãe alertou em um tom preocupado.

— Tá — concordei com um muxoxo.

Aquela atitude infantil tinha sido a única coisa divertida da manhã.

Uma espiadinha pelo retrovisor me lembrou quanto meus olhos, de um castanho tão claro quanto mel, ainda estavam vermelhos, as olheiras entregando a noite mal dormida.

— Lembro como se fosse ontem o dia em que seu pai te ensinou a fazer isso… — Mamãe apontou para a janela, os olhos distantes. — Vocês me deixavam maluca.

— É, eu também…

Juntei meus fios dourados em um rabo de cavalo torto. Minha franja, travando uma batalha com o vento, estava mais rebelde do que nunca.

Sem pedir licença, imagens daquele passado nebuloso inundaram minha mente. Já fazia tanto tempo que eu nem tinha certeza do que era real ou não.

Foi durante um passeio a Guarapari. Eu já tinha perguntado “A gente já chegou?” mais vezes do que o Burro em Shrek 2, quando meu pai colocou o braço para fora e brincou de tentar pegar o vento. Meus lábios, que até então formavam um bico emburrado, relaxaram. Uma gargalhada encheu o carro enquanto mamãe protestava sobre os perigos das autopistas.

Uma sensação agridoce se espalhou pelo meu peito. Lembrar do meu pai sempre causava essa mistura de saudade e frustração.

— Sinto muito que o Estevão não tenha aparecido — mamãe quebrou o silêncio.

Do outro lado da pista, uma carreta passou na velocidade da luz, buzinando.

— Uhum— foi o que consegui dizer com a garganta apertada.

Nas últimas semanas, meu pai havia prometido que nos encontraríamos antes que eu deixasse Vitória para passar as férias com minha avó e suas irmãs no Recanto das Rosas, um chalé entre as montanhas em Pedra Azul que era um dos pontos turísticos mais famosos da região serrana do Espírito Santo.

Ele disse que tinha conhecido um restaurante com boliche incrível e que estava doido para me levar. Eu não deveria ter criado muita expectativa, mas a ideia de passar algumas horas com meu pai jogando boliche pareceu divertida.

Eu sabia que encontrá-lo depois de três meses sem nos vermos seria estranho. Sobre o que conversaríamos? Parecíamos mais dois estranhos do que pai e filha. E esse estranhamento nem começou depois que ele saiu de casa… Nossa intimidade era tão superficial que ele nem fizera questão de combinar com minha mãe como seriam nossos encontros mensais, já que a guarda era compartilhada.

Ainda assim, o ambiente do boliche e um bom jogo poderiam ajudar a quebrar o gelo, não é mesmo? Pelo menos nos manteria ocupados. Seria melhor do que sentar diante dele em uma mesa na praça de alimentação de um shopping e conversar amenidades por cinco minutos. Passar disso seria um recorde digno de estar no Livro dos Recordes.

Tendo me deixado levar por meu coração bobo, eu tinha ficado animada. Até lavei meu Vans Old Skool branco para usar.

Ontem, depois de me despedir da mamãe e ouvir uma lista infinita de recomendações, desci para esperar meu pai na portaria do prédio. Observei as nuvens fofas se tornarem rosas-bebês. Quando o céu ficou escuro e as nuvens deram lugar às estrelas, meus olhos arderam por causa das lágrimas que eu tentava conter.